Esses são os fatos:
- Modelos de IA, especialmente os grandes como o GPT, demandam vastos recursos computacionais para serem treinados e depois executados. Isso consome grandes quantidades de energia elétrica. Treinar um modelo de IA de grande porte pode consumir tanta energia quanto centenas de casas por ano.
- A inferência (uso diário) também gera consumo expressivo, especialmente quando milhões de usuários acessam a IA simultaneamente. Um estudo estimou que treinar o GPT-3 (2020) gerou mais de 500 toneladas de CO₂ — o equivalente a dirigir um carro comum por mais de 1,2 milhão de quilômetros.
- Os data centers - grandes estruturas físicas que hospedam servidores, consomem energia para operar e para resfriamento. Esses centros muitas vezes funcionam com eletricidade oriunda de fontes fósseis, aumentando a pegada de carbono. Sua construção envolve desmatamento, fragmentação de habitats e afastamento de espécies locais. A mineração de lítio em áreas andinas, por exemplo, já afeta flamencos e outros animais nativos por alterar salares (planícies formadas pela evaporação de lagos salgados) e fontes de água.
- Milhões de litros de água por ano são necessários para resfriamento, o que reduz a disponibilidade hídrica para fauna silvestre e ecossistemas aquáticos. Um único data center pode usar mais de 100 milhões de litros de água por ano, dependendo da localização. Além disso, a temperatura aumentada da água em rios e lagos próximos, afeta peixes e microrganismos sensíveis ao calor.
- A construção de hardware necessário para IA exige minerais raros, como Lítio, Cobalto e Neodímio. Essas extrações podem causar desmatamento, poluição da água, destruição de ecossistemas, deslocamento de comunidades locais, liberação de metais pesados (chumbo, mercúrio) no solo e na água, afetando animais terrestres e aquáticos, comprometendo sua reprodução, alimentação e saúde geral.
- É necessário ter se em conta, também, que a rápida obsolescência de componentes usados para IA gera grandes volumes de lixo eletrônico, nem sempre reciclado de forma adequada, e que assim contribui para o aumento da poluição e contaminação de solo e água.
- O consumo energético da IA contribui para emissões de gases de efeito estufa, agrava o aquecimento global, afeta diretamente a fauna causando mudança nas rotas migratórias, escassez de alimento e água, desequilíbrio entre predadores e presas e, a longo prazo a extinção de espécies sensíveis ao calor.
- Em contrapartida, A IA pode ser essencial na monitoração de espécies ameaçadas, prevenção de incêndios florestais, e detecção de desmatamento. Pode evitar colisões de navios com baleias, por exemplo, por meio de sistemas inteligentes, melhorar práticas de agricultura regenerativa ou proteção de áreas de preservação.
Ou seja, o uso ético da IA pode proteger a vida não humana, desde que os benefícios superem os custos ambientais.
Para mitigar os danos causados por esses impactos, será necessária a adoção de iniciativas positivas, como a utilização de energias renováveis em data centers (solar e eólica); pesquisa em IA "verde", foco em algoritmos sustentáveis; o desenvolvimento de modelos mais eficientes, que exijam menos energia; compensação de carbono por meio de reflorestamento ou compra de créditos de carbono.
Mas, a IA pode continuar se expandindo sem comprometer o planeta?
Por um lado, há forte demanda econômica por IA - empresas e governos estão investindo bilhões de dólares.
Por outro lado, para que a IA não vire um vilão ambiental, governos e instituições internacionais precisam trabalhar no sentido de promover energia limpa, limitar emissões em projetos de IA, exigir auditorias ambientais de grandes empresas de tecnologia, proibir mineração predatória para chips e baterias, reduzir drasticamente a emissão de gases de efeito estufa, frear o desmatamento de modo eficiente, investir em educação ecológica e digital crítica para todas as idades, e restaurar ecossistemas-chave (Amazônia, Cerrado, florestas boreais).
O risco de colapso — seja ecológico ou tecnológico — não é mais apenas uma hipótese futurista: ele já dá sinais no presente. Se nada mudar em relação à sustentabilidade da IA, os riscos aumentam. Se entrarmos em colapso climático/social irreversível, a IA deixaria de ser prioridade ou se tornaria inoperável.
A chance de sobrevivência da IA, caso nada mude nos próximos 10 anos, nos deixa perspectivas factíveis. O impacto ambiental da IA é significativo, mas pode ser mitigado com escolhas responsáveis por parte de empresas, governos e desenvolvedores. A transparência sobre o custo ambiental e a busca por soluções tecnológicas sustentáveis serão essenciais para o futuro da IA e do mundo.
A hora de agir é agora!
