Cidades esponja

O arquiteto chinês Kongjian Yu, pai do conceito de Cidades-Esponja, visitava o Brasil para a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo 2025, quando, infelizmente, sofreu um acidente aéreo e veio a falecer. Mas seus ideais continuam vivos.

As cidades-esponja que ele nos apresentou são um conceito urbano relativamente novo, criado para enfrentar os problemas causados pelas mudanças climáticas e pela rápida urbanização, especialmente as enchentes e a escassez de água.

A ideia é que, assim como uma esponja absorve água, essas cidades são planejadas para reter, infiltrar, armazenar e reutilizar a água da chuva em vez de simplesmente drená-la rapidamente para rios ou esgotos. É uma abordagem de planejamento urbano que busca lidar com excesso de chuvas, inundações e escassez de água, usando soluções de infraestrutura verde e azul.

  Essa ideia inclui:

  • Infraestrutura verde: parques, jardins, áreas verdes e telhados verdes que absorvem água da chuva;
  • Calçadas e ruas permeáveis: que permitem a infiltração da água no solo;
  • Lagos e reservatórios artificiais criados para armazenar o excesso de água em épocas de chuva intensa;
  • Canais e wetlands urbanos projetados para filtrar e retardar o escoamento da água;
  • Reutilização da água coletada na irrigação, resfriamento urbano ou até tratamento para consumo.

Com isso as consequências óbvias são:

  • Redução de alagamentos e enchentes.
  • Reabastecimento dos lençóis freáticos.
  • Melhora da qualidade da água.
  • Regulação da temperatura urbana (menos ilhas de calor).
  • Mais áreas verdes, aumentando a biodiversidade e a qualidade de vida.

Onde esse conceito já foi posto em prática?

  • A China, desde 2015, tem o programa Sponge Cities, com cidades como Wuhan, onde existem 389 projetos-piloto com capacidade de absorver 85% das águas pluviais.
  • Em Pequim, parques esponja armazenam cerca de 16 milhões de m³ de água por ano.
  • Em Xiamen, há integração de telhados verdes em mais de 1,5 milhão m² de construções;
  • Em Singapura, há integração da drenagem sustentável em parques e jardins;
  • Na Europa, Copenhague e Roterdã também adotam soluções inspiradas nesse modelo.

De maneira geral, as estruturas e soluções utilizadas incluem:

  1. Pavimentos permeáveis com taxa de infiltração de até 70–90% da água da chuva, o que reduz picos de escoamento em até 40–80% comparado a superfícies impermeáveis,
  2. Telhados verdes retêm 50–80% da água da chuva dependendo da espessura do substrato, reduzindo a temperatura urbana em até 2–4 °C localmente;
  3. Parques alagáveis (wetlands urbanos) com capacidade de armazenar 10.000–20.000 m³ de água por hectare, filtram poluentes (nitrogênio, fósforo, metais pesados).
  4. Lagos e reservatórios artificiais dimensionados para armazenar volumes equivalentes a uma chuva de 20 a 50 anos de retorno são conectados a canais drenantes para evitar transbordamentos.
  5. Bacias de infiltração e biovaletas com eficiência na remoção de 80–95% de sólidos suspensos, reduzem o escoamento superficial em até 70%.

Qual a eficiência do processo?

  • O coeficiente de escoamento superficial em áreas tradicionais chega a 0,8–0,95; em áreas esponja pode cair para 0,2–0,4.
  • O tempo de detenção da água passa de minutos na drenagem convencional para horas ou dias, favorecendo infiltração e evapotranspiração.
  • A qualidade da água apresenta redução de até 90% de metais pesados e 70% de nutrientes após passar por zonas filtrantes.

Como está o Brasil nessa questão?

Já temos recursos naturais (solos, vegetação), materiais tecnológicos (pavimentos permeáveis, mantas, reservatórios) e estratégias urbanísticas que podem ser combinados para tornar nossas cidades mais resilientes às enchentes, ao calor e às mudanças climáticas.

  • Muitas cidades brasileiras ainda têm áreas de solo natural permeável que pode ser preservado ou recuperado;
  • A vegetação nativa, ipês, jacarandás, quaresmeiras e árvores da Mata Atlântica ajudam na infiltração da água, retenção de solo e sombreamento;
  • Jardins de chuva (pequenas depressões no solo com plantas adaptadas ao excesso de água) já são utilizados em Curitiba e São Paulo;
  • Telhados verdes retém até 70% da água da chuva e melhoram a temperatura interna;
  • Paredes verdes que, além de estéticas, ajudam na absorção de água e reduzem ilhas de calor.
  • Lagos e wetlands urbanos (espaços de retenção temporária de água), que podem ser integrados a parques públicos.

Quais os materiais e tecnologias disponíveis no Brasil?

  • Pavimentos permeáveis - blocos intertravados, pisos drenantes, concregrama (concreto com espaços para grama crescer), brita e soluções similares já são fabricados no país;
  • Asfalto drenante - já testado em cidades como São Paulo e Brasília, permite escoamento da água para o subsolo.
  • Geotêxteis e mantas drenantes - produtos nacionais para filtração, proteção de solos e drenagem.
  • Reservatórios modulares de infiltração já usados em loteamentos;
  • Sistemas de captação e reuso da água da chuva - cisternas, filtros e reservatórios já são produzidos nacionalmente.

Quais são as estratégias de planejamento urbano no Brasil?

  • Parques lineares - já implantados em várias cidades (Parque Linear Cantinho do Céu, em São Paulo), funcionam como áreas de drenagem e lazer;
  • Reflorestamento urbano de margens de rios e córregos - recuperação da vegetação ciliar para absorção de cheias;
  • Zoneamento ecológico-econômico - políticas locais que favorecem áreas permeáveis e restringem impermeabilização.