Míopes

Míopes é o que somos. Ou fingimos ser.
Enxergamos longe, olhamos o mundo pelas telas, discutimos grandes causas, defendemos causas universais, o planeta, os animais, a inclusão, mas negligenciamos o humano ao lado: nunca paramos para conversar com o porteiro do prédio, ou com o gari que mantém nossa rua limpa. Sequer notamos a funcionária invisível que limpa o chão do prédio onde trabalhamos!

Vivemos cercados. Gente, por todos os lados. Mas, estranhamente, sozinhos.

Passamos por corpos curvados nos cantos das ruas, olhares apagados em pontos de ônibus, vozes inaudíveis que se arrastam com bengalas ou sacolas plásticas cheias de quase nada. E não vemos.  

Somos míopes de alma.

Passamos por um cego e não enxergamos. Cruzamos com a miséria e aceleramos o passo.

Nos orgulhamos da conectividade global, mas nos desconectamos do que é próximo. Somos ativistas nas redes e indiferentes nas calçadas. Enxergamos as guerras, os escândalos, os algoritmos, mas tropeçamos no que está diante de nós e nem sequer nos damos conta disso. 

Nós nos enxergamos, sem dúvida, no espelho, numa selfie, nos stories; mas vemos ainda muito pouco. O que se passou ao seu lado hoje que você simplesmente não viu?

A rotina, a pressa e o medo criam muros invisíveis, especialmente quando esse outro carrega dor, deficiência, pobreza ou vulnerabilidade. Afinal, o que eu tenho a ver com isso?

Reivindicamos inclusão nas redes sociais, mas evitamos o contato visual com o diferente no elevador. Gritamos por justiça no mundo, mas somos surdos ao “bom dia” sussurrado pelo vizinho inconveniente a nosso lado.

Ver, realmente ver, é o primeiro ato de justiça, de reconhecimento da dignidade humana.

No nosso mundo confortável a miséria incomoda, o sofrimento desconcerta, a deficiência assusta. Pessoas passam por nós não mais do que como sombras passageiras.

E, com isso, deixamos de ser, pouco a pouco, humanos.

Que nossa miopia não nos cegue para sempre. Que o simples ato de ver volte a ser um gesto de humanidade.

Vamos recuperar a capacidade de ver o sofrimento alheio. Ajudar se possível, mas não negar sua existência. Um sorriso não custa nada; um “bom dia” pode amenizar a solidão do outro.
Precisamos ver a pobreza, a deficiência, a exclusão, o abandono, com consciência social sem precisarmos gastar nosso rico dinheirinho com eles. Basta a empatia generosa, basta reconhecermos sua existência.   

Miopia por conveniência é um ato silencioso de egoísmo. Isso nos torna mais frios, mais solitários, menos humanos. Cada vez que ignoramos o outro, perdemos um pouco de nós mesmos.
E aos poucos, vamos ficando todos invisíveis uns aos outros.

Se o tópico lhe interessa, aqui vão alguns livros que versam sobre o tema. Boa leitura!

https://amzn.to/4ffbvPq

https://amzn.to/3IQAQmF

https://amzn.to/4mjKpsv

https://amzn.to/4m1xMD2

https://amzn.to/4fisWyz

“Este post contém links afiliados. Isso significa que posso receber uma comissão se você comprar através deles, sem custo extra para você.”