Dentistas esteticistas???

Frustração! Esse foi o meu sentimento ao sair do consultório odontológico semana passada. Fui gentilmente atendida: café, chá ou chocolate quente? Saí de lá com a certeza de que pareço mais velha do que penso e com uma lista de procedimentos estéticos que deveria fazer, mas que não me interessam. MAS, EU SÓ QUERIA TRATAR OS DENTES!!!

Nos dias de hoje, há uma tendência crescente em que muitos dentistas têm se concentrado mais em procedimentos estéticos, como a harmonização facial, do que no cuidado preventivo e no tratamento dentário tradicional.  

Onde andam os verdadeiros dentistas, os que nos mandam sentar e abrir a boca em vez de nos colocarem sob uma lupa a procura de defeitos?  Me preocupa o fato de que muitos profissionais tenham deixado de lado a verdadeira essência da odontologia: o cuidado com a saúde dos dentes e da boca.

O que acontece, agora, com nossa saúde bucal, doenças como cáries, gengivites, doenças periodontais que podem, inclusive, levar a problemas mais sérios, como doenças cardíacas? Enquanto cresce a demanda social por aplicações de Botox, preenchimentos e procedimentos de contorno facial, menor a chance de encontrarmos profissionais realmente dedicados ao cuidado com os dentes. É preciso que se lembrem de seu compromisso.

Acredito que, como pacientes, devemos aprender a cobrar mais.  Que as clínicas de estética não se camuflem em consultórios dentários. E que os consultórios dentários não priorizem o tratamento estético facial. Que uma melhor aparência dos dentes e do sorriso, uma maior harmonia e funcionalidade sejam oferecidas, mas que se restrinjam aos dentes!!!

A atuação do Estado é fundamental para garantir que profissionais, inclusive dentistas, exerçam suas funções com ética, responsabilidade e dedicação à saúde pública, não apenas aos interesses financeiros ou às tendências de mercado.  

Se faz necessária uma maior fiscalização das clínicas odontológicas, através do Conselho Federal de Odontologia (CFO) e dos conselhos regionais, garantindo que os procedimentos clínicos básicos sejam oferecidos com qualidade.    

Universidades, por meio do MEC, precisam revisar seus currículos acadêmicos promovendo ética profissional voltada ao bem-estar do paciente e à saúde pública, reforçando mais a formação clínica e preventiva, e oferecendo menor carga horária a procedimentos estéticos, ou que ofereçam isso como pós-graduação opcional.

Também, profissionais que atuam apenas em clínicas de estética poderiam ter menos acesso a benefícios como linhas de crédito específicas para saúde, incentivos fiscais ou subsídios para abertura de consultórios, registro em programas de atendimento público.

Já os que atuam com saúde bucal preventiva, especialmente em áreas carentes, deveriam ser incentivados com pontuação extra em concursos, redução de impostos, financiamento de especializações.

 Ao fortalecer os programas de saúde bucal pode-se exigir dedicação real, com metas de prevenção e acompanhamento dos pacientes. O atendimento odontológico tem de voltar a ser reconhecido como parte fundamental da saúde pública, e não apenas um "plus" estético.

Campanhas governamentais também têm o poder de reeducar a população sobre o valor da saúde bucal, reforçar a identidade do dentista como profissional de saúde, estimular a escolha por profissionais comprometidos com a saúde, pressionando o mercado a se adaptar.