Muitas de nós temos histórias sobre machismo pra contar. E isso vai desde os pais, irmãos, avós, até total desconhecidos. Certa vez, numa grande loja de departamentos em São Paulo, escolhi o eletrodoméstico que queria, paguei, mas não me deixaram sair da loja alegando que eu precisava que meu marido autorizasse a compra. Total absurdo!
Houve, também, o caso da adolescente cujo pai disse que ela devia parar de estudar porque ela só iria lavar, passar e cozinhar. Não precisava ir à faculdade pra isso.
E a da mãe que disse que o irmão da garota teria que autorizar o namoro dela. Ele era o HOMEM da casa e a palavra dele era o que valia.
Em delegacias, ainda hoje, o julgamento social muitas vezes recai sobre a vítima: mulheres ainda ouvem: “o que você fez pra ele te bater?”; "você provocou".
São tantos casos que não sobraria espaço aqui para discutirmos o objeto desse post.
Por séculos, um condicionamento histórico e cultural doutrinou mulheres para aceitar que o homem é o provedor (embora isso hoje já não seja mais verdade); que a mulher deve ser submissa, cuidadora e dependente; que a masculinidade deve ser forte, dura e agressiva — e a feminilidade, dócil e recatada.
Meninas ainda hoje são “convidadas” a lavar a louça do jantar enquanto os meninos vão jogar vídeo games ou assistir TV. Isso ensina que mulheres existem para servi-los; que eles podem fazer o que quiserem e que estarão sempre acima das críticas ou punições.
Essas ideias entram pelas frestas da educação, religião, mídia, escola e até da literatura. As mães aprendem, desde meninas, que existe um “lugar certo” para o homem, e elas o mantêm nesse lugar ao criar os filhos.
Mães que sofrem ou foram subjugadas por figuras masculinas podem projetar no filho o papel de homem da casa; exigir dele responsabilidade emocional precoce; não impor limites, tratando-o como rei, gerando um senso inflado de poder e autoridade; confusão entre amor, posse e controle do outro, levando a comportamentos dominadores e abusivos no futuro.
Verdade seja dita, historicamente, o ser humano herdou de seus ancestrais a agressividade como instinto de autopreservação que visava proteção para si mesmo ou ao seu grupo; assegurar alimento ou território seguro; dominação para se manter no poder. Ao longo da história, homens mataram por expansão de territórios; para impor religiões ou ideologias; para dominar povos e recursos naturais.
A guerra sempre foi justificada por "grandes causas", mas por trás disso havia ambição, medo e desejo de poder.
Em muitas culturas, a masculinidade estava atrelada à força e à violência - matar era visto como uma forma de preservar a honra masculina – veja os duelos, as vendetas, os crimes de honra.
Muito se matou (e ainda se mata) alegando ordens divinas ou superiores — disfarçando o fanatismo, a manipulação ou o desejo de controle.
Estatísticas mostram que mais de 90% dos homicidas no mundo são homens. Isso se deve à criação, treinados que eram, desde cedo a suprimir emoções, resolver conflitos pela força; a buscar poder e dominação; aos papéis de gênero tóxicos.
Mães (e pais) muitas vezes exigem dos filhos que sejam “fortes” desde cedo, educam meninos com frases como: "Homem não chora", "Seja homem!", "Bate de volta senão você vai ser uma maricas," cristalizando ideias de que as emoções são fraqueza; a violência é a solução; a sensibilidade é vergonhosa. Esse tipo de educação bloqueia a empatia e estimula a brutalidade como forma de afirmação masculina. O menino cresce emocionalmente analfabeto; não aprende a reconhecer e expressar emoções de maneira saudável; a raiva passa a ser a única emoção “aceitável”.
Negando ou justificando comportamentos violentos, algumas mães: negam que o filho é agressivo (“ele é só nervoso”); culpam os outros ("essa menina provocou"); escondem delitos para proteger o filho (“menino é assim mesmo”). Isso reforça a impunidade emocional: o menino aprende que pode ferir e fugir das consequências.
Tudo isso acontece dentro de um sistema familiar, social e cultural que vai além das paredes do lar. Mães repetem padrões porque também foram ensinadas assim; estão sozinhas na criação (muitos pais são ausentes ou omissos); vivem sob pressões sociais que culpam e cobram mais das mulheres.
Esses impulsos, embora hoje mais refinados, ainda existem, muitas vezes distorcidos ou mal administrados.
Muitos assassinatos são cometidos por raiva intensa advinda de desavenças familiares, ciúme, posse, medo ou vingança.
Em pessoas com menor controle emocional, impulsividade e baixa empatia, esses sentimentos podem levar à violência extrema: assassinatos premeditados e cruéis.
Homens com transtornos antissociais, psicopatia ou sociopatia tendem a ter prazer no controle, na manipulação e não sentem culpa ou remorso pelo sofrimento alheio.
Fatores contemporâneos e estruturais como a desigualdade social (pobreza extrema, falta de oportunidades e injustiças alimentam o crime), a cultura da violência (filmes, jogos, discursos públicos que exaltam o uso da força), facilidade de acesso a armas tornam mais rapidamente impulsos violentos em letais.
A violência não é apenas uma questão individual: é um sintoma de algo que a sociedade ainda não resolveu em sua estrutura, cultura e emoções.
Mães, pais, professores, cuidadores devem aprender a trabalhar na validação dos sentimentos dos meninos; ensinar que a força verdadeira é controlar a raiva, não bater; dar responsabilidades e exigir respeito por todos; mostrar que afeto e vulnerabilidade representam não fraqueza, mas humanidade.
As mães que reforçam a masculinidade tóxica também são produto de uma sociedade patriarcal, construída ao longo dos séculos para preservar o poder dos homens e subjugar as mulheres. Muitas vezes, elas reproduzem sem perceber padrões que perpetuam a violência e a desigualdade.
Mães de gerações passadas sofreram com homens autoritários, ausentes ou violentos. Mas, em vez de romper o ciclo, muitas tentaram proteger os filhos tornando-os “fortes” ; reproduziram com os filhos o mesmo tratamento que receberam — porque era tudo o que conheciam; reprimiram sua dor e raiva criando filhos que se afastam da empatia e da sensibilidade temendo que eles sofram bullying, exclusão ou fracasso social.
-A mãe que mima o filho homem e sobrecarrega a filha está dizendo: "homem é para ser servido, mulher é para servir".
A mãe que passa a mão na cabeça do filho violento, mas exige respeito da filha, está ensinando que homens podem mais. Esse filho, quando adulto, pode se tornar narcisista, controlador ou incapaz de lidar com o “não” — e violento quando contrariado.
Nós, mães não somos vilãs, somos vítimas de um sistema que nos culpa, controla e coloca para cuidar da dor do mundo sem cuidar da própria dor.
Mas é fundamental que uma nova consciência surja, para que mães (pais, e a sociedade toda) se libertem dessa programação e ajudem a formar homens mais humanos, empáticos e responsáveis.
O feminicídio, é o ponto final de um ciclo de controle e dominação e está diretamente ligado à cultura patriarcal e à masculinidade tóxica, ambas reproduzidas e naturalizadas ao longo de gerações.
Não começa no ato violento em si, mas sim quando a mulher é tratada como propriedade; quando ela diz "não" e isso é visto como desrespeito ou provocação; quando o homem acredita que tem o direito de controlar com quem ela fala, como se veste, aonde vai; quando a perda do controle é vivida como uma ameaça ao seu ego masculino. Desde pequenos, aprendem que "homem de verdade" tem que dominar, conquistar, “possuir”: se ela se submete, se torna “posse” , se rejeita, é “vagabunda”.
O assassinato acontece quando o homem não suporta ser contrariado, abandonado ou desafiado — porque foi ensinado que isso fere sua honra e sua identidade.
Essa ideia desumaniza a mulher. E a desumanização é sempre o primeiro passo para a violência.
Historicamente, leis e instituições reforçaram esse comportamento, protegeram o agressor e não a vítima.
Até recentemente, matar por “legítima defesa da honra” era aceito como atenuante em muitos países; e isso reforça no agressor a sensação de que pode tudo e nada de mal lhe acontecerá.
Se a mulher tenta sair da relação, dizer “não”, impor limites — isso fere o ego inflado e frágil do agressor. E em muitos casos, o resultado é a morte.
Feminicídio não é excesso de paixão. É excesso de poder. É um ato extremo de controle.
O homem mata não porque ama demais, mas porque não suporta perder o domínio sobre uma mulher que ele acha que possui, como se fosse um objeto.
Feminicídio é sintoma de uma sociedade doente - Não basta punir os casos. É preciso: mudar a educação dos meninos; desconstruir o machismo nas famílias e nas escolas; reforçar o valor da mulher como sujeito pleno; dar apoio real às mulheres que pedem ajuda.
O feminicídio nasce da mesma estrutura que programa meninos para o controle e meninas para a submissão.
Romper com isso exige coragem coletiva: de mães, pais, escolas, leis, mídia e, principalmente, dos homens.
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