Vandalismo é instinto?

Temos visto em São Paulo, nas últimas semanas, uma onda crescente de ataques a ônibus que deixam feridos o patrimônio público e os trabalhadores dessa cidade.  Como os incêndios e depredações, esses ataques são eventos graves e, infelizmente, recorrentes em momentos de crise ou tensão social. A agressividade existe em nós, ela é instintiva; ela está ligada à sobrevivência. Já a forma como ela se manifesta depende da educação, do meio social, da cultura e das experiências vividas. O vandalismo decorrente dessa agressividade, nesse sentido, é um sintoma — não a causa — de algo mais profundo: alienação, raiva contida, abandono, injustiça ou falta de propósito.

 O vandalismo não vem de um instinto nato, como a fome e a sede, mas é uma expressão desorganizada de impulsos humanos básicos, muitas vezes nutridos por carência emocional, exclusão social ou ausência de sentido.

 Os ataques a ônibus em São Paulo não são apenas atos de vandalismo: são sintomas de uma sociedade doente, onde a violência se torna linguagem porque o diálogo não está sendo oferecido.

Esse sentimento de abandono e injustiça muitas vezes vêm de regiões periféricas, onde a polícia é mais violenta que protetora, o transporte público é precário, a juventude cresce sem oportunidades, a revolta se acumula por gerações.

Nessas circunstâncias, o ataque a um ônibus não é só destruição gratuita — é a explosão de uma bomba social que ninguém quis desarmar.

As motivações para esses atos podem variar muito:

  1. Protesto ou revolta social: quando o ato destrutivo se torna uma forma de gritar contra a injustiça.
  2. Afirmação de poder: em grupos, especialmente entre jovens, pode ser forma de desafiar autoridade ou "marcar território".
  3. Busca por atenção: alguns agem para serem notados, mesmo que negativamente.
  4. Tédio ou vazio existencial: quando há ausência de propósito, o ato de destruir pode dar sensação (temporária) de controle.
  5. Descontrole emocional ou psicológico: traumas, transtornos de conduta, impulsividade extrema.

Em crianças e jovens em fases de desenvolvimento, o vandalismo pode denotar carência, confusão emocional ou imitação de comportamentos violentos - uma manifestação impulsiva de emoções primitivas, não bem elaboradas ou canalizadas. A falta de diálogo, de limites e de referências saudáveis pode incentivar atitudes destrutivas.

Pessoas em situações de extrema frustração, dor ou revolta muitas vezes não diferenciam quem é culpado de quem não é. Elas não atacam alguém em particular — atacam o sistema, o símbolo, ou o que está ao seu alcance.

“Não é contra você, é contra tudo o que você representa.”

Infelizmente, quem representa o "Estado", a "autoridade", o "conforto dos outros" pode ser qualquer um: um ônibus, um policial, uma loja, ou mesmo um cidadão comum.

Muitos ataques a ônibus ocorrem:

  • Após ações policiais violentas,
  • Após mortes de jovens em comunidades,
  • Em resposta à falta de serviços públicos dignos,
  • Ou como reação à impunidade ou desigualdade.

A destruição se torna uma forma errada, mas expressiva de demonstrar raiva, indignação e sensação de abandono.

É um grito de "vocês só vão ouvir quando doer", mesmo que isso afete inocentes.

Em alguns casos, os ataques são organizados por grupos criminosos, como forma de:

  • Intimidar o Estado ou a polícia,
  • Desviar atenção de operações policiais,
  • Gerar caos como demonstração de poder,
  • Ou “vingar” mortes de integrantes.

Esses atos são calculados, e o ônibus vira símbolo do sistema público e do “inimigo”.

Durante esses ataques, indivíduos agem de forma que sozinhos talvez não agiriam. Em grupo, a responsabilidade se dilui, o impulso é ampliado, a adrenalina substitui o juízo e a ação se torna “normalizada”. Esse comportamento coletivo muitas vezes foge ao controle racional.

Os ônibus simbolizam:

  • O Estado e os serviços públicos,
  • A rotina do trabalhador,
  • A vida social que se quer interromper para chamar atenção,
  • Um alvo fácil, visível e com grande impacto.

Em ambientes onde há violência constante, humilhação, exclusão social, ou traumas acumulados, a empatia se perde. A dor alheia deixa de ser percebida. A violência vira rotina. Atacar o outro, mesmo inocente, passa a ser visto como "natural" ou "necessário" para sobreviver ou ser ouvido, porque a raiva precisa sair por algum lugar, mesmo que sem sentido.

Sem orientação, apoio psicológico, cultura de paz ou diálogo desde cedo, muitos nunca aprendem a elaborar sua dor de forma saudável.
É como se só conhecessem duas formas de reagir: a apatia total, ou a explosão destrutiva

E nessa explosão, os inocentes pagam o preço.

A impunidade ou a dificuldade de identificar os responsáveis está diretamente ligada ao aumento do vandalismo e de outros crimes também.  

Quando atos de vandalismo não são investigados ou punidos de forma eficaz, a mensagem que se passa é: “ninguém será responsabilizado”.

Isso gera:

  • Repetição dos atos (porque funcionam como protesto ou diversão sem consequências),
  • Efeito de contágio: outros se sentem encorajados a fazer o mesmo,
  • Descrença no Estado — e reforça a ideia de que a lei não se aplica igualmente a todos.

 Em grandes cidades como São Paulo, identificar os vândalos é difícil por vários motivos:

  • Ações em grupo, com rostos cobertos,
  • Rapidez dos ataques,
  • Falta de câmeras em áreas vulneráveis,
  • Falta de recursos humanos e tecnológicos para investigação.

Muitas vezes, os poucos identificados são soltos logo em seguida, por falta de provas ou de estrutura jurídica para manter o processo.

E o ciclo se repete: impunidade → mais vandalismo. Consequência: a sociedade perde:

  • Cidades vêm aumentar a sensação de insegurança;
  • Ônibus e escolas são depredados;
  • A população mais pobre é a mais afetada;
  • A descrença na justiça e no governo se proliferam.

Precisamos conter isso com:

  • Maior investimento em tecnologia de monitoramento (câmeras, inteligência artificial);
  • Resposta rápida e justa do sistema penal;
  • Prevenção social e educativa - para que jovens não vejam o vandalismo como forma de expressão;
  • Mediação comunitária e escuta ativa de grupos vulneráveis.

“Onde a punição falha, o vandalismo se fortalece; onde o Estado se ausenta, a violência preenche o vazio.”