No estado do Amazonas, Brasil, assentamentos, moradias e até bairros construídos sobre as águas dos rios e lagos urbanos, “cidades flutuantes” ou “assentamentos flutuantes”, são mais do que curiosidade arquitetônica ou geográfica — são uma expressão viva da relação entre o homem, o rio e a floresta. Elas nos falam de adaptação, de comunidades ribeirinhas, de urbanização peculiar e de desafios de sustentabilidade e justiça social, e oferecem um ótimo exemplo de como habitar em harmonia com águas, mas também de como o planejamento urbano social precisa acompanhar para que essa adaptação seja digna, segura e sustentável.
Essas estruturas de moradia ou habitação que não estão totalmente sobre o solo firme, são construídas sobre plataformas, boias ou toras de madeira (ou outros suportes) que flutuam ou se mantêm sobre as águas, ou construídas à margem de rios/lagos por sobre cujas águas a “cidade” se estende. Em particular, estudos para as cidades de Tefé e Coari indicam que, nas águas próximas às principais cidades da região do Médio Solimões, no Amazonas, centenas de flutuantes exercem funções domiciliares, comerciais, institucionais e de serviços.
funções comerciais ou de serviços que “Em outro caso, no rio Purus, o bairro flutuante de Tapauá, era composto por 332 casas flutuantes que servem como moradia e ocasionalmente para serviços.
Uma das versões históricas mais expressivas foi a chamada “Cidade Flutuante de Manaus”, na capital, Manaus, em que milhares de pessoas viviam em moradias flutuantes no ambiente do rio. Em 1966, estimam-se cerca de 1.950 flutuantes com aproximadamente 11.400 moradores.
Tais assentamentos flutuantes são manifestações da adaptação humana ao contexto amazônico, onde rios, lagos, cheias e vazantes fazem parte da dinâmica:
- Essas moradias flutuantes permitem que a população se adapte aos ciclos de cheia e vazante típicos da Amazônia, bem como à proximidade de rios/lagos.
- Muitos moradores vieram de comunidades ribeirinhas e mantêm práticas de pesca, extrativismo ou trabalho no rio e na floresta, mas também vivem agora em espaços urbanos ou periurbanos.
- No rio Tarumã‑Açu (em Manaus) foram identificados flutuantes para moradia, lazer e turismo, servindo diferentes funções de comércio, com bares, restaurantes, serviços vinculados à água, infraestrutura de lazer. Ali, havia decisão judicial de 2004 para retirada de moradias flutuantes por risco ambiental: pensava-se os detritos das moradias flutuantes estivessem “matando o rio”.
- A infraestrutura de saneamento é precária, há questões ambientais e insegurança jurídica.
- Em Anamã (AM), as casas flutuantes, a vida sobre a água, a proximidade dos rios na Amazônia oferecem uma identidade distinta e forte para essas comunidades: as casas são coloridas, artesanais, parte da cultura local.
Potenciais desafios e implicações
- Muitas dessas comunidades são de pessoas com menos acesso a recursos, vindas de áreas rurais, ribeirinhas — o que implica em vulnerabilidades em saúde, educação, infraestrutura.
- Em Manaus, moradias flutuantes históricas foram removidas ou reassentadas no passado, implicando em perda de moradia ou mudança de modo de vida dos moradores.
- O uso de rios/lagos como moradia exige cuidado com impactos no ecossistema aquático, saneamento, resíduos, risco de inundação.
- A ocupação flutuante desafia modelos tradicionais de urbanização (solo firme, ruas, zoneamento). Como regular a questão de propriedade, a responsabilidade municipal?
Para quem se interessa por destinos sustentáveis, esses assentamentos flutuantes podem oferecer roteiros de turismo autêntico, intimamente ligados à natureza, à vida ribeirinha, à cultura amazônica – com potencial para turismo comunitário, ecológico.
Ao mesmo tempo, a sustentabilidade está em jogo: se bem planejados, podem representar formas de habitação adaptadas ao meio ambiente amazônico, com menor impacto que urbanização convencional; se mal planejados, podem gerar degradação ambiental e exclusão social.
O turismo para visitar as cidades flutuantes da Amazônia, é uma experiência única e muito procurada, principalmente por quem quer conhecer de perto a vida ribeirinha e as peculiaridades da região.
As mais conhecidas cidades flutuantes estão no entorno de Manaus (AM), especialmente no Encontro das Águas, e também em comunidades como:
- Comunidade do Catalão (perto de Manaus)
- Comunidade Nossa Senhora do Livramento
- Porto do Careiro da Várzea
- Comunidade de Ariaú, famosa pelos hotéis de selva flutuantes
Essas comunidades vivem literalmente sobre as águas — as casas, escolas, igrejas e até campos de futebol flutuam sobre troncos ou tambores, acompanhando o sobe e desce do rio.
O turismo inclui passeios guiados de barco que saem de Manaus e duram de meio dia a um dia inteiro. Os roteiros geralmente incluem:
- Visita às casas flutuantes e conversa com moradores
- Passeio pelo Encontro das Águas (Rio Negro + Solimões)
- Observação de botos cor-de-rosa
- Almoço em restaurante flutuante
- Em alguns casos, pernoite em lodge flutuante
A melhor época para visitar é entre dezembro e junho, o nível dos rios sobe e as cidades flutuantes ficam mais impressionantes — parece que tudo está sobre o espelho d’água. De julho a novembro, o rio baixa e é possível ver o contraste entre as fases de cheia e seca.
Prefira operadoras locais e ecológicas, que respeitem o modo de vida ribeirinho e o meio ambiente. Evite empresas que incentivem o contato direto com animais silvestres ou alimentem botos, por exemplo.
