Começamos com o pé esquerdo!
O discurso sobre a mulher sempre foi construído por filósofos, legisladores, líderes religiosos, homens que só tinham a ganhar consolidando um imaginário feminino de fragilidade, emoção e irracionalidade.
Historicamente, em sociedades pré-históricas e agrícolas, priorizava-se a força física para a caça, a guerra e os trabalhos pesados. Como, inegavelmente, em média os homens têm maior força física, eles foram associados ao papel de provedores e/ou guerreiros.
A gestação e o cuidado dos filhos restringiam temporariamente as mulheres de certas atividades, levando à construção cultural de que “pertenciam ao espaço privado”.
Com o surgimento da agricultura, da acumulação de excedentes e da propriedade privada, consolidou-se a ideia de herança masculina: garantir a linhagem paterna fez com que o controle sobre a sexualidade e os corpos das mulheres se tornasse central.
Leis antigas, como as do Código de Hamurábi (c. 1750 a.C.) e do direito romano, colocavam a mulher sob tutela do pai ou marido, reforçando a ideia de que ela não era um ser autônomo.
Na tradição cristã, Eva simboliza a desobediência. Tradições religiosas associavam a mulher ao pecado, à tentação ou à inferioridade. Textos hindus e confucionistas pregavam que a mulher devia submissão absoluta ao homem.
São Tomás de Aquino, em seus escritos (especialmente na Suma Teológica), afirma: “A mulher é defeituosa e acidental, e foi criada como ajuda do homem na geração, não em outras obras.”
Essa ideia vem diretamente de Aristóteles (De Generatione Animalium, II, 3), onde ele diz que a mulher é um “homem falhado”.
Tomás adapta isso ao cristianismo: a mulher não é um erro de Deus, mas uma criação necessária para a reprodução, ainda que “secundária” em relação ao homem.
Ele também sustenta que:
- O homem foi criado primeiro, portanto é superior na ordem da criação;
- A mulher foi criada para ser ajudante do homem, não sua igual;
- A razão humana é mais perfeita no homem do que na mulher;
- Na alma, não há diferença de dignidade, mas na natureza e nas funções, há hierarquia.
Essa distinção — “iguais diante de Deus, mas desiguais na natureza e nos papéis” — tornou-se uma justificação teológica do patriarcado cristão por séculos.
Na Grécia e Roma antigas, nas cidades medievais, até mesmo na época do Iluminismo, a cidadania sempre foi pensada para homens. Mulheres eram vistas como pertencentes à “família” do cidadão, não eram cidadãs plenas.
Mesmo com a Revolução Francesa, e a Revolução Americana, processos revolucionários que proclamavam a igualdade, a exclusão feminina permaneceu. Os espaços de educação e trabalho remunerado foram sistematicamente negados às mulheres, deixando-as, como era de se esperar, na dependência econômica de pais e maridos, reforçando a visão de que elas eram menos capazes ou menos “racionais”.
A condição de “cidadã de segunda” é fruto de uma construção histórica baseada no patriarcado, na economia da propriedade, no controle da herança e em narrativas culturais que inferiorizaram as mulheres por milênios. Leis, religiões, filosofias e práticas sociais construíram e naturalizaram a inferioridade feminina.
Na Grécia Antiga (séc. V a.C.) – Sócrates, Platão e Aristóteles tinham uma visão profundamente desigual sobre as mulheres. Elas eram vistas como inferiores física, intelectual e moralmente ao homem, visão essa amplamente aceita na sociedade, refletindo-se na filosofia, na política e na educação. Na vida cotidiana grega, as mulheres livres raramente participavam da vida pública; viviam reclusas, enquanto os homens tinham liberdade social, política e sexual.
Relações homoeróticas e idealização masculina
No contexto da paideia (educação e formação do cidadão), era comum que homens mais velhos tivessem relações de eros (eróticas e intelectuais) com jovens rapazes.
Essas relações eram vistas como formas de elevar a alma e buscar a beleza e a sabedoria — algo que se acreditava só possível entre iguais, ou seja, entre homens.
Platão, no Banquete, descreve o amor entre homens como o mais puro, porque estaria livre dos “desejos carnais” associados à reprodução.
Para muitos gregos, a relação entre homem e mulher era necessária apenas para gerar filhos, enquanto o amor entre homens podia ser intelectual e espiritual.
O homem era o ideal de beleza, força e razão.
A mulher era vista como o oposto: imperfeita, emocional, passiva.
Assim, amar outro homem era, para alguns filósofos e cidadãos gregos, uma forma de amar o que havia de mais “nobre” na humanidade.
Na Roma Antiga (séc. I a.C. – séc. III d.C.) - O pai de família tinha poder absoluto sobre esposa e filhos. Mulheres não podiam exercer cargos públicos, ainda que algumas ganhassem notoriedade em círculos literários e religiosos.
Na Idade Média (séc. V – XV) - Cristianismo medieval
Eva simbolizava a culpa e a tentação; a Igreja reforçava o papel de submissão feminina.
O casamento era indissolúvel e a mulher passava da tutela do pai para a do marido. Mulheres tinham algum espaço em conventos (onde podiam estudar e escrever), mas eram exceções.
No Renascimento e Iluminismo (séc. XVI – XVIII) – época do Humanismo e da ciência. Apesar de avanços intelectuais, a maioria das mulheres continuava excluída da educação formal.
Em 1789, com a Revolução Francesa, surge a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que também excluía as mulheres. No entanto, logo em seguida, em 1791, Olympe de Gouges, publica sua Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã e foi guilhotinada por questionar esse sistema.
Só a partir do século XIX e início do século XX, começam a surgir movimentos feministas com foco em direitos civis e políticos.
Em 1948, constituições modernas passaram a reconhecer formalmente a igualdade de gênero depois de a ONU passar a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Entre 1960 e 1980, surgiram reivindicações de igualdade no trabalho, direitos reprodutivos, combate ao machismo cultural.
Com a industrialização, as mulheres passaram a trabalhar em fábricas, embora em condições precárias e salários muito menores que os dos homens, coisa que, infelizmente, ainda vemos hoje em dia.
Na Inglaterra, nos EUA, depois em outros países, movimentos sufragistas começaram a lutar pelo direito ao voto e pela igualdade jurídica.
Na China, atrocidades foram cometidas: em 1979, durante o governo de Deng Xiaoping, foi oficialmente implementada a política do filho único. O governo chinês percebeu que o crescimento populacional muito acelerado poderia comprometer o desenvolvimento econômico. A medida foi formalizada e passou a ser aplicada em grande escala, com regras e sanções para famílias que tivessem mais de um filho. O infanticídio feminino existiu historicamente na China, por muitos séculos. Muitos casais preferiam filhos homens, considerados responsáveis por sustentar os pais na velhice e perpetuar o nome da família.
Muitas fontes históricas documentam os métodos mais frequentemente relatados (afogamento, asfixia, abandono, sufocação, privação de cuidados).
Existem relatos em literatura médico-forense contemporânea sobre corpos estranhos (agulhas) encontrados em cérebros ou tecidos de crianças em vários países.
A política durou mais de 30 anos, sendo oficialmente substituída pela política dos dois filhos em 2016 e de até três filhos por casal em 2021, diante do envelhecimento populacional e da queda da taxa de natalidade.
A população masculina chegou a cerca de 30 milhões a mais de homens que mulheres na população chinesa, gerando dificuldades para muitos encontrarem parceiras e aumentando práticas como tráfico de mulheres e casamentos arranjados.
Hoje, a China tem uma das populações que mais envelhece no mundo, com uma proporção cada vez menor de jovens.
A política ajudou a conter o crescimento populacional, mas hoje a China sofre com escassez de mão de obra jovem, afetando a competitividade do país.
Consequências históricas
As ideias de Tomás de Aquino, grandemente influenciadas por ideias aristotélicas de que a mulher era um ser inferior, foram adotadas como doutrina oficial da Igreja Católica (especialmente a partir do Concílio de Trento, no século XVI).
Isso influenciou:
- A educação: mulheres foram excluídas do estudo das ciências e da teologia;
- O direito canônico: reforçou a submissão feminina ao marido;
- A filosofia cristã: perpetuou a noção de que o homem é o “cabeça” da mulher.
Assim, o pensamento de Aquino misturou a filosofia grega (racionalista e hierárquica) com a teologia cristã, criando uma visão em que a inferioridade da mulher parecia “natural e divina” ao mesmo tempo.
No século XXI surgem avanços com a presença crescente das mulheres na política, na ciência, no mercado de trabalho e nos espaços de liderança, embora ainda persistam a disparidade salarial, a violência de gênero, a sub-representação em cargos de poder, desigualdades interseccionais de classe, raça e/ou idade.
Movimentos recentes, como o #MeToo, o Ni Una Menos, a Marcha das Mulheres — todos reforçam a luta contra assédio, feminicídio e exclusão.
