Há no mundo, hoje, uma sexualidade exacerbada? De onde vem isso e como seguir daqui? Esta é uma questão a ser combatida ou é o caminho natural da humanidade?
Durante séculos, a sexualidade foi alvo de repressões e críticas. A moral religiosa, o controle parental e social pregavam como vergonhoso falar-se a respeito. O corpo, o desejo e o prazer eram considerados pecaminosos ou sujos. O que vemos hoje pode ser, em parte, uma reação histórica à repressão passada.
A partir da segunda metade do século XX, a revolução sexual, os movimentos feministas, LGBT e de contracultura abriram novos espaços. A sexualidade passou a ser usada como ferramenta de atenção e consumo. Hoje, nas mídias, redes sociais, músicas, publicidade, moda, a sexualidade está mais exposta, visível. A liberdade de expressão sexual hoje tem maior aceitação de diferentes orientações, identidades e práticas. A internet disponibiliza pornografia e conteúdo erótico gratuita e abundantemente.
É natural que a sexualidade esteja mais visível numa sociedade que avança em liberdades individuais.
Os movimentos libertários e feministas, que desafiaram séculos de repressão sexual, estão agora pregando maior liberdade para que as pessoas se assumam, experimentem e falem de sexualidade.
Mas, há realmente uma sexualidade exacerbada nos dias de hoje? A questão abrange uma abordagem cultural, psicológica, biológica e ética, de forma honesta, crítica, mas sem moralismo.
As redes sociais exaltam a beleza física, corpos padronizados, dopamina fácil. O “clickbait sexual” é recompensado com likes, seguidores e visibilidade. Além do mais, a sexualidade vende, e, no capitalismo digital, vira moeda que vende ainda mais quando combina autoestima, aparência e influência. Ela manipula desejos, vende produtos, cria aspirações inalcançáveis. Corpos perfeitos e hipersexualização são explorados para manter pessoas inseguras e consumindo.
Com isso, crianças e adolescentes são expostos a conteúdos sexualizados cada vez mais cedo.
Entretanto, o que não acompanha esse desenvolvimento é a educação sexual de qualidade.
A percepção de afeto, respeito, limites, consentimento, e relacionamentos saudáveis, maduros emocionalmente se perde num emaranhado de corpos expostos. Em uma sociedade acelerada, hiper conectada e ansiosa, o sexo (ou sua imagem) pode virar compensação rápida para solidão, insegurança ou falta de sentido.
Mas excesso sem consciência gera vícios e compulsões, objetificação do corpo e das relações, desconexão entre prazer e afeto, tristeza, ansiedade e sensação de inadequação. A banalização, a pressão para performar, a falsa liberdade que esconde novas formas de opressão, especialmente para mulheres e jovens, a perda de profundidade nos vínculos humanos trazem consequências.
Como seguir daqui?
Talvez a resposta a algumas de nossas perguntas seja mais simples do que podemos imaginar. Reprimir a expressão sexual voltaria a alimentar os traumas do passado, criando culpa, vergonha e hipocrisia.
Precisamos aprender a conversar com nossas crianças desde cedo sobre desejo, limites, consentimento, prazer e respeito sem o ranço do tabu ou apologia, para que não confundam liberdade sexual com auto exploração inconsciente. Temos que desvincular o sexo não só da culpa, mas também do consumo, resgatar o corpo como território do cuidado e não da vitrine. Desmistificar o corpo humano sem erotizá-lo de forma automática.
Valorizar o toque, o tempo, a intimidade, o silêncio, o olhar. Valorizar relações humanas profundas e não apenas o superficial.
Criar espaços para diálogo verdadeiro sobre identidade, desejos, inseguranças, vícios e experiências reais, fora do padrão das redes. Afinal, que tipo de prazer estamos buscando? Estamos preenchendo um vazio existencial ou fugindo da realidade, de nós mesmos?
A sexualidade precisa ser não combatida, mas ressignificada. Ela faz parte da natureza humana. Ela pode ser um caminho de liberdade, conexão e autoconhecimento se for reorientada com consciência, empatia e profundidade, para que não se transforme em um novo tipo de aprisionamento — ou instrumento de alienação, consumo e sofrimento. Tudo depende da orientação que dermos a ela.
