Beleza acima de tudo

Muito se tem falado das canetas emagrecedoras que viraram uma tendência forte nos últimos anos.  Muitos influenciadores as promovem como “soluções fáceis” para emagrecer. São dispositivos injetáveis pré-dosados, usados subcutaneamente, geralmente na barriga, coxa ou braço. Contêm medicamentos que imitam hormônios intestinais chamados incretinas, que regulam o apetite e o açúcar no sangue.

As chamadas “enzimas emagrecedoras” são um tema popular no marketing de produtos para perda de peso, mas é importante saber separar os fatos científicos da propaganda.;

Enzimas são proteínas, atuam como catalisadores biológicos, ou seja, aceleram reações químicas no corpo e são essenciais para funções como digestão, metabolismo e desintoxicação.

Não existem “enzimas que fazem emagrecer” de forma direta ou mágica. Mas algumas enzimas podem participam indiretamente de processos metabólicos que influenciam o peso corporal:

1. Lípase - decompõe gorduras (lipídios) em ácidos graxos e glicerol; age no trato digestivo; facilita a digestão de gorduras, mas não faz perder gordura corporal por si só.

2. Amilase - degrada carboidratos em açúcares simples; está presente na saliva e no pâncreas.

3. Protease - digere proteínas; ajuda na absorção eficiente de aminoácidos.

4. Carnitina palmitoiltransferase (CPT) - ajuda a transportar ácidos graxos para dentro das mitocôndrias, onde são “queimadas”.

Alguns produtos no mercado usam o termo "enzimas emagrecedoras" para vender cápsulas ou injeções com L-carnitina, enzimas digestivas, hormônios ou substâncias lipolíticas que prometem quebra de gordura localizada, redução de peso sem esforço, mas na realidade não há evidência científica robusta de que essas enzimas isoladas, em forma de suplemento ou injetáveis, causem emagrecimento significativo sem dieta e exercício.

As "enzimas injetáveis para emagrecimento" oferecidas por muitas clínicas são coquetéis de substâncias, que podem incluir cafeína, L-carnitina, lipase, silício orgânico, e exsudatos vegetais. São geralmente aplicadas em sessões de mesoterapia, diretamente na gordura localizada. E, embora alguns pacientes relatem redução de medidas, os efeitos são temporários, demandando aplicações recorrentes; a eficácia não é garantida cientificamente e há riscos como inflamação, infecção ou reações alérgicas.

O que realmente ajuda a emagrecer com base na ciência ainda é a boa e velha alimentação equilibrada, sono de qualidade, gerenciamento do estresse, exercícios físicos e, claro, o déficit calórico.

A ideia de “enzimas emagrecedoras” vende bem, mas não substitui hábitos saudáveis. Elas podem ajudar na digestão e no metabolismo, mas não queimam gordura sozinhas. Não resolvem as causas emocionais, comportamentais ou ambientais da obesidade, exigem mudanças permanentes de estilo de vida e seu uso indevido afeta o acesso de quem realmente precisa desses medicamentos (diabéticos, obesos com risco cardiovascular). Elas são, na verdade, canetas aplicadoras de medicamentos para controle de diabetes tipo 2 ou obesidade, usados sob orientação médica. Elas imitam os hormônios GLP-1 e GIP, que aumentam a saciedade, reduzem a velocidade do esvaziamento gástrico, diminuem a fome e os picos de insulina e melhoram o controle glicêmico. Com uso regular (associado a dieta e exercícios), estudos sugerem que a perda de peso corporal pode variar entre 8 e 15% em média, em até 16 meses.

Os efeitos colaterais mais comuns são: náusea, vômito, diarreia ou constipação, tontura, azia, risco de hipoglicemia (em diabéticos) e casos raros de pancreatite, problemas renais, e alteração da vesícula. Há, também, riscos de se desenvolver distúrbios alimentares, complicações graves (especialmente em pessoas mais vulneráveis). Por isso, devem ser prescritas por endocrinologistas ou clínicos responsáveis pelo acompanhamento do tratamento. E, é sempre bom lembrar, não têm por finalidade o uso estético sem indicação médica. Também, a interrupção abrupta pode levar a rápido ganho de peso.

A busca por beleza pode ser expressão de autocuidado, identidade, prazer, quando dentro de limites aceitáveis. No entanto, quando se torna imperativa, tirana, uma medida de valor humano, o que se perde no caminho entre o espelho e a essência?